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1 de Março de 2026

#150. Homem básico

Olá,

Fui apresentado por P. ao conceito de “básico”. Ou ao novo conceito, desses que surgem no Twitter e confundem quem não está lá.

Para mim, “básico” é algo simples, sem extras, sem firulas. O outro “básico” se confunde com padrão, clichê. Refere-se a características comuns a um grupo de pessoas.

Cinco coisas do homem básico:

  • Torcer para time de futebol.
  • Falar incansavelmente de investimentos.
  • Adorar carros e/ou Formula 1.
  • Assar uma carne com os parças.
  • Pensar no Império Romano.

No meu conceito de básico, considero-me uma pessoa básica. No novo, acho que não.

Até poucos dias atrás, nunca havia pensado no Império Romano fora da escola ou ao assistir a um filme de época. Aí peguei para ler o primeiro volume de “História da vida privada” e o primeiro capítulo, assinado pelo Paul Veyne, é sobre… o Império Romano.

Por óbvio, há diferenças entre aquela época e a nossa, mas o que me chamou a atenção são as similaridades. Muito antes do Instagram, as pessoas (ou parte delas; os senhores/homens ricos da época) viviam de de ostentar e eram admiradas por isso.

Tal constatação me levou a uma crise existencial, aumentada com uma sessão da terapia que tocou em um velho ponto problemático meu, o da rigidez moral. Ignoro atividades, pessoas e eventos por qualquer defeito ou desconforto.

Diante de tantas evidências clínicas e históricas, pensei em tentar ser mais básico. No sentido moderno, digo.

A primeira atitude que tomei foi baixar de novo o Instagram, o que funciona como comprovante de pessoa básica. Sentia falta? Não. Também passei a acessar o feed algorítmico do Bluesky e a rolar o do LinkedIn. É tudo meio caótico e acho que fiquei deprimido, mas pode ser só o período de readaptação.

Outra mudança, ainda em curso, é me abrir a atividades físicas coletivas (jogar futebol quarta-feira à noite e participar de clube de corrida: coisas de gente básica). Antevejo aí um grande desafio. Além da aversão a encostar em gente suada, dependendo da atividade até a conversa me distrai.

Acho que não te contei que passei por três estúdios de pilates porque os instrutores falavam demais, o que me desconcentrava, e só acertei no terceiro porque, antes de começar, disse à professora que não curto muito conversar durante a prática. Um poço de simpatia, eu sei, mas funcionou. E a gente conversa — eu e a professora —, só que antes e depois das sessões.

Não consigo me imaginar sendo mais básico sem trair quem eu sou, sem sofrer. Viver é um grande sofrimento, afinal, e não é como se eu não já tivesse os meus. Afastei-me tanto das outras pessoas que esse virou o maior problema da minha vida. Talvez se eu fosse mais “básico”…

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